Estávamos em 1980. Era minha primeira viajem a Índia. Sob a orientação do educador DeRose, estávamos em 30 instrutores de Yôga, percorrendo há duas semanas o subcontinente indiano, visitando templos, escolas de Yôga e ruínas históricas. O ambiente entre nós era o melhor possível, com todos tirando muitas fotos, dando muita risada, e entre um compromisso e outro da nossa agenda turística, nos deliciando com a maravilhosa e inigualável culinária indiana.
Quase no final da viajem, aportamos em Aurangabad, uma cidade fundada em 1610 pertencente ao Estado d e Maharastra, localizada no oeste do país, com cerca de 945 mil habitantes.
Seu principal atrativo turístico são as cavernas de Ajanta e Elôra. Elas foram construídas entre 600 e 1000 d.C., e talhadas na encosta de um monte. As trinta e quatro cavernas de Ellora estendem-se por quilômetros e incluem templos budistas, hinduístas, e janaístas.
Mas o templo mais impressionante e famoso de Ellora é o Kailasanatha. Este é dedicado a Shiva, sendo escavado de cima para baixo e retirados mais ou menos 85 mil metros cúbicos de rocha para a sua construção.
Ao entrar no arcaico complexo de edificações, eu havia recolhido um pequeno ramalhete de flores vermelhas e levava comigo enquanto acompanhava nosso grupo percorrendo as escuras galerias, seguindo a apresentação do guia turístico. Nossos olhos extasiavam-se diante dos corredores extensos, passagens estreitas, pátios interiores; escorregadiças escadas, poços escuros, repentinas varandas e galerias, de onde podia-se contemplar as planícies abaixo.
Passado algum tempo, afastei-me do grupo e iniciei uma escalada para os andares mais altos das cavernas, através das estreitas e desgastadas escadas. À medida que avançava andares de grutas acima, escasseavam os grupos de turistas, até que atingi um nível das cavernas onde presenciei um silêncio imperturbável. Sob os meus pés, o chão de pedra polida assinalava os milhares de pés nus que haviam estado ali. A minha direita e esquerda, mais de uma centena de metros de um grande salão vazio, cujo teto de rocha maciça era sustentado por dezenas de largas colunas. E a minha frente, para dentro da pedra, uma escuridão sem fim.
Senti-me impulsionado para avançar na direção aquela obscuridade granítica. Algo me chamava para a parte escura do imenso salão. Um tanto inseguro, encetei a caminhada ao encontro da espessa negritude. Curiosamente, à cada passo que me fazia penetrar mais e mais na escuridão, meu coração ficava mais tranqüilo, como se meu corpo soubesse estar em um local seguro.
Imerso em um ambiente sem luz, ouvi o movimento de asas de alguns morcegos passando por cima de minha cabeça, provavelmente assustado por uma presença inesperada. E continuei caminhando até que meus pés encontraram o que parecia ser um degrau. Tateei com as mãos a minha direita e esquerda e descobri que ali terminava o salão e que estava diante de uma porta.
Ainda com a flor na mão, sobrepus-me ao degrau e adentrei ao que parecia um outro salão. Sem enxergar coisa alguma, na posse de uma coragem surpreendente diante do desconhecido e impelido por uma força incompreensível, caminhei mais alguns passos para dentro do salão e toquei no que me pareceu outro degrau, porém maior. Arrisquei transpor, mas a estrutura rochosa continuava a erguer-se. Posei então minhas mãos para tentar identificar e me arrepiei: estava diante de um imenso lingam de pedra, símbolo de fertilidade e poder, e alusivo a Shiva. Abri meus braços para tentar contorná-lo, mas ele crescia ainda mais para os lados e para muito além de minha altura.
Centenas de anos antes, aquele salão havia sido um local de culto a Shiva, o criador mitológico do Yôga. Impactado, depositei as flores que trazia comigo, como um pújá, aos pés do lingam e envolvido por aquela atmosfera de antiguidade e poder, sentei-me para meditar.
Com a mente silenciosa, minha consciência deixou-se impregnar da tônica vibratória do local. Senti-me transportar para um tempo e espaço em que aquele salão ficava lotado de devotos de Shiva. Podia captar os cheiros, os mantras, as roupas e os rostos. Fiquei imerso muito tempo, desfrutando daquelas prazerosas percepções.
Finalmente abri os olhos e considerei que era hora de voltar ao convício do grupo. Levantei-me, e ainda sob o impacto das impressões deixadas pela meditação, caminhei na direção das escadas que me levaram aos andares mais baixos de cavernas.
Quando cheguei ao local onde ficara o nosso ônibus, ele já lá não estava. Em verdade, o local estava deserto e me descobri sozinho. Fiquei parado algum tempo tentando absorver o que estava acontecendo, quando ouvi alguém falando em híndi atrás de mim. Virei-me e defrontei um pequeno indiano, com trajes que indicavam ser o vigia do local.
Sentamo-nos sobre algumas pedras maiores que haviam se deslocado das edificações e iniciamos o diálogo mais inusitado: eu a usar o meu parco inglês e ele utilizando uma mistura da língua bretã com seu próprio idioma.
O sol começava a se por. O céu desdobrava-se do anil até o vermelho e já mal conseguíamos divisar detalhes dos nossos rostos. Pássaros cortavam o céu e um silêncio permeava a cena, apenas quebrado pelas nossas vozes que eram quase um sussurro, com se não quisessem quebrar a paz daquele momento. Com uma mescla de temor e excitação, vislumbrava a possibilidade de ter de ficar na Índia. O pequeno indiano convidou-me a pernoitar em casa de sua família e eu já aceitara.
Quando nos preparávamos para partir, meus olhos vislumbraram uma nuvem de poeira vinda em nossa direção. Era o ônibus de turismo do nosso grupo que voltava para me pegar. Ficamos em pé aguardando a sua aproximação. Despedi-me do amigo indiano e voltei todos ao hotel. Não era desta vez que viraria um saddhu na Índia.
Muito cedo, meu pai, Telmo Marengo, me incitou ao hábito da leitura. Com 12 anos fui apresentado Lord Jim, obra ficcional de Joseph Conrad, um escritor britânico de origem polonesa.