Blog do Jojó

Um espaço para compartilhar com amigos, alunos e curiosos sobre filosofia, vida, trabalho, amor, esporte e Yôga.

UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA

Janeiro 23rd, 2009

foto-mestre-e-jaya“Yôga é qualquer metodologia estritamente prática que conduza ao samádhi”.

De todas as definições de Yôga, esta sempre me pareceu a mais coerente. E representa muito bem a integridade de quem a escreveu.

Ao lê-la, temos a sensação de abrangência, de que qualquer sistema, independentemente dos seus seguidores, possa ser reconhecido como Yôga, desde que seja técnico e reproduza a experiência da hiperconsciência.

E tem, também, o sentido de nos acenar com uma proposta não doutrinária. Se ela é estritamente prática, independe de fé ou de crença. O Yôga não é um prêmio por bom comportamento, mas é, unicamente, uma questão de foro íntimo.

É como aprender a andar de bicicleta. Nós não necessitamos de fé para aprender a andar de bicicleta, nem precisamos questioná-la sobre sua moral, seu comportamento ou quantos são seus créditos no céu. É só subir nela…e cair. E levantar-se e tentar, tentar, até sair andando. Ou seja, todos temos direito a andar de bicicleta. Como ao Yôga!

Mas a frase também tem a coragem de separar os charlatões, os falsos iluminados e os mestres de vigarice, daqueles que, efetivamente, realizaram em si o Yôga, porque coloca em cheque as definições utilitárias, comerciais, superficiais, enganadoras ou intangíveis, oferecidas pelos impostores.

A frase em questão também tem a característica de não vender benefícios. Atrairá um perfil de praticante que não é manipulável, que prima, principalmente, pela inteligência, pela imparcialidade e pelo amor à verdade. E que representa uma fatia muito pequena da população, portanto, não é comercial.

Só posso me orgulhar de conhecer uma pessoa tão corajosa, que vem defendendo a visão autêntica do Yôga ancestral, durante tanto tempo, apesar das injustas perseguições que lhe têm sido impostas durante 40 anos: o Mestre DeRose.

Independentemente de ser uma pessoa íntegra, séria e honesta, esta frase já valeria ao meu velho amigo um lugar no hall dos grandes Mestres de Yôga de todos os tempos, apesar das suas imperfeições e fragilidades humanas.

Tomara que aqueles que dizem amar o Yôga, os yamas e os niyamas, mas o detratam covardemente pelas costas, não acordem tarde demais para reconhecer o valor desse grande homem, depois que as irresponsáveis e caluniosas palavras os tiverem, finalmente, feito soçobrarem.

Uma história na Índia – 1998

Janeiro 23rd, 2009

 

Swámi Niranjan

Swámi Niranjan

Era a minha segunda viagem a Índia. Era janeiro de 1998, um período em que a temperatura é mais amena e a época ideal para se conhecer o país.

 

Viajavamos em um grupo de quase trinta brasileiros, entre professores e alunos de Yôga.

Uma das etapas da viagem foi estudar por uma semana no Bihar School of Yôga, uma organização fundada por Swámi Satyananda Saraswati em 1964, localizada em Munger, cidade do estado de Bihar e especializada na formação de professores.

Todos os dias, entre as atividades, estava incluído um sat sanga com Swámi Niranjan, que fora indicado por Swami Satyananda para substituí-lo na direção do ashram. Reuniam-se mais de 200 pessoas, entre swamis, acólitos, discípulos e estudiosos ocidentais para ouvir as preleções, todos sentados sobre um grande gramado entre as suntuosas edificações, que contrastavam com a realidade muito pobre fora da instituição.

No terceiro dia em que participávamos das conferências, Niranjan tomou conhecimento da existência do nosso pequeno grupo de brasileiros através de seus assessores. Ele sempre sentava-se em um púlpito, numa cadeira alta, cercado de swamis idosos, e dois enormes cães vaimaraner, relaxadamente descansando aos seus pés.

Curioso, quis saber quem era o representante do grupo e este apontou para mim. Olhando fixamente, o Maestro me perguntou qual era o estilo de Yôga que praticávamos.

- Dakshinacharatántrika-Niríshwarasámkhya Yôga– respondi.

Um murmúrio percorreu o grupo de decanos swamis que cercavam o Mestre.

- Quem é o seu Mestre? – voltou a perguntar o Educador.

- Sri DeRose – retorqui.

Ele ficou alguns momentos em silêncio e tornou a questionar:

- Como é a prática deste Yôga?

- Mudrá, pújá, mantra, pránáyáma, kriyá, ásana, yôganidrá e samyama.

Duzentas pessoas cravavam seu par de olhos sobre nós dois, acompanhando com a cabeça a intercalação do diálogo.

Não satisfeita a sua curiosidade, Niranjan volveu a indagar:

- Como é o samyama?

- Yantra dhyána, mantra dhyána e tantra dhyána – lhe respondi, com voz sempre firme.

Irrompeu um clamor entre veneráveis sacerdotes, estrangeiros e residentes. Niranjan levantou uma das mãos pedindo silêncio, fitou-me por alguns longos instantes. Eu suava frio, pois achei que havia cometido alguma bobagem e que iria repreender-me. Finalmente me respondeu:

- Muito antigo o seu Yôga. Muito ancestral.

- Pátañjali Yôga, Swámiji? – dirigiu-se à ele um dos assessores, demonstrando surpresa.

- Não, não. Muito mais antigo – respondeu Niranjan, erguendo novamente a mão para informar que a conversa tinha se encerrado e continuou sua preleção.

Esgarçando as raízes do conhecimento de si mesmo.

Janeiro 22nd, 2009

inteligenciaSe quiser conhecer a si mesmo, conheça seu passado.

É chocante o quanto nos comportamos de forma condicionada, aprisionados num pequenino hiato temporal de memória daquilo que somos. E acredito que por isso, nos comportamos de forma tão leviana e irresponsável, realizando escolhas com tão pouca profundidade e poder.

Nossa vaidade é focada no supérfluo, na necessidade doentia de um reconhecimento sem limites e que nos leva a uma exposição que beira o ridículo tal a maneira como a maioria de nós o mendiga.

Que fique claro que não desprezo a vaidade, mas sim o seu direcionamento infantil.

Porque não direcioná-la para a plena conscientização da nossa condição de primatas pelados e a enorme e hercúlea obra cultural, comportamental e econômica que realizamos em 200 mil anos de História evolutiva?

Quanto mais se mergulha no conhecimento da nossa evolução desde os primeiros hominídeos, alguns milhões de anos atrás e desvelamos as profundas mutações anatômicas e comportamentais que sofremos, mais descobrimos que o nosso passado ainda está submerso em um véu de mistério e fascinantes descobertas por fazer.

Por outro lado, estas poucas informações compiladas, fruto de um trabalho exaustivo de gerações de pesquisadores altruístas e curiosos, são um extraordinário combustível para que, associadas com o que conseguimos perceber no que somos hoje, promover uma verdadeira revolução na nossa visão da realidade.

E esta visão é, na minha humilde opinião, a grande dádiva da existência, pois influencia na forma como agimos e pensamos, reconstruindo diariamente nosso futuro.

E ainda tem mais, pois ela, a visão esgarçada da realidade, tem a maleabilidade imprescindível para que ingressem nela novas descobertas, expandindo-a para mais além, em um fascinante processo sem fim de aprendizado e mudança.

Para mim, nada, absolutamente nada se compara a nossa humana e primata capacidade para aprender. Desvelar mais um pedacinho da realidade e uni-la a tudo que já aprendemos é de um prazer indescritível. Produz um upgrade na velocidade, qualidade e quantidade de associações cognitivas, promovendo uma potencialização na percepção das realidades sobrepostas e interconectadas em que estamos imersos do nascimento a morte. E talvez, para além dela. Quem sabe…

A beleza ilhoa e a democracia

Janeiro 7th, 2009

bundaAcredito que o metro quadrado mais bonito do mundo, no período de janeiro e fevereiro, fique em Floripa, no triângulo quase pubiano entre Praia Mole, Jurerê e Praia Brava.

Há alguns anos atrás, recebi em minha casa alguns amigos portugueses, originários da cidade do Porto. Assim que se hospedaram, foram direto para a Mole e simplesmente não conseguiam segurar os queixos, diante da absurda e quase ostensiva quantidade de corpos e caras absolutamente belos.

Mas a observação que quero compartilhar com você, na verdade me foi feita pelo querido amigo de longa data, o engenheiro Álvaro Sardinha.

Numa mesa de café, ele me chamou a atenção para um tipo muito especial de beleza, característico dos Estados catarinense e gaúcho.

Pessoas lindas, fruto de um PIB privilegiado, existe aos montes, como o Soho, em NY, Ibiza ou Sant Tropez. São caras, cabelos e corpos frutos de uma seleção econômica e de uma combinação genética apurada. Ou seja, uma beleza decorrente da exclusividade. Não vejo nenhum mal nisso. É, na verdade, uma formosa realidade.

Mas o que se contempla em Floripa, em qualquer dia de verão, na Rua Felipe Schmidt, atrás de qualquer balcão de loja, nas praias ou atendendo em algum restaurante é uma beleza democrática, tão ou mais apurada do que as encontradas nos nichos de exclusividade, porque se apresenta tão bela quanto, porém em estado quase bruto. São decorrentes das miscigenações características do Sul do Mundo, que inclui o português, italianos, alemães, com generosas pitadas do negro e do índio. A resultante, no verão, quando toda a juventude do sul do planeta aporta em Floripa, é uma combinação irresistível, em quantidade e qualidade, que arrastam levas de turistas a nossa ilha ávidos pelo belo.

Dica de livro: Uma breve história do mundo – Geoffrey Blainey

Janeiro 7th, 2009

breve-hsitoriajpgTenho presenteado meus amigos com este livro por um grande e bom motivo: a visão que temos da História da evolução humana é muito retalhada. Não conseguimos compreender a extensão da importância de cada evento contemporâneo, sejam mudanças tecnológicas, comportamentais ou econômicas porque não conectamo-los com outros eventos anteriores da trajetória de nossa espécie.

Embora não se aprofunde em nenhum tema, o autor permite que expandamos nossa compreensão das impressionantes mudanças ocorridas em 15 mil anos de civilização e também, a profunda, intima e indissolúvel relação entre evolução humana e economia, enquanto ciência que estuda os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários a sobrevivência do Homem.

De leitura fácil e agradável, Geoffrey Blainey descreve os acontecimentos quase como um romance, cativando o leitor e nos alertando para alguns eventos que jamais imaginamos que pudessem ter o peso que tiveram nas mudanças históricas

Dica de música: Cello – David Darling (1992)

Janeiro 5th, 2009

cello_mdVioloncelista Maverick” é como é conhecido o artista David Darling, um homem que literalmente redefiniu o modo como o violoncelo é tocado hoje no mundo pela riqueza, diversidade, amplitude e a forma da sua performance.

Com uma discografia bastante ampla, Cello (1992) é um trabalho solo, de uma profundidade extraordinária, quase que a reprodução do silencio. Ë perfeito para momentos de meditação, criatividade e inspiração.

Ao ouvi-lo a percepção que se tem é de que não é uma música apenas, mas uma pintura musicada.

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